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  Ser criativo é um estado natural do ser humano, a menos que você queira provar o contrário
Por Milton Tortella, Artista Visual, diretor de Criação da Tortella Comunicação e diretor do IBMR



É isto mesmo, cada indivíduo é o único responsável por ser ou não criativo. A criatividade nasce com o ser humano, ela é fruto da espontaneidade e pode deixar de brotar naturalmente se questionado, por ele próprio ou pelos outros. Neste caso, ocorre um bloqueio dessa criatividade, mas, em geral, toda pessoa é capaz de criar, basta que esteja predisposta para tal.

É só imaginarmos que um bebê é estimulado o tempo todo a andar, falar, comer, etc. e responde com uma força de vontade incrível, que logo o fará deixar de engatinhar para tentar manter-se de pé e articular os primeiros passos. Depois, ele passa a receber outras formas de estímulo em seu comportamento, algumas delas em função de cuidados que precisamos observar. Então, vêm “não pode isso”, “não pode aquilo”, “não põe a mão aqui”, “cuidado com aquilo outro”, “tira ele daí” e assim será durante toda sua existência, passando a escutar o que deve ou não fazer. E o que isto tem a ver com o ato de criar? Tudo. É muito difícil encontrar uma criança que não saiba brincar e – o mais interessante –, independentemente do tipo de brinquedo que tenha nas mãos, ela se diverte com o que tem e é feliz assim.

Trata-se da livre associação – a liberdade de misturar e tentar combinar coisas, inverter, mudar, tirar um pedaço e acrescentar outro – e é por meio de muitas tentativas e erros que o ser humano se permite descobrir o novo. Sem a predisposição para tentar chegar a algum lugar ou a uma ideia, ao novo, não concretizaria o processo criativo de fato.

A criatividade pode ajudar na melhoria da qualidade de vida das pessoas. Um problema não resolvido o indivíduo pode levar para o sono e, muitas vezes, desaparecer com ele. Um trabalho de escola ou profissional medíocre não traz a recompensa, a nota, o resultado desejado. Uma apresentação óbvia poderia até atender à sua necessidade, mas também provocar pouco interesse e, em alguns casos, causar sono àqueles que a estariam assistindo.

O uso da criatividade é, sem dúvida, um diferencial competitivo para profissionais e empresas de todos os portes e ramos de atividade. É, certamente, uma das características, somada ao conhecimento técnico, mais importantes do mercado corporativo, depois da ética, claro.

O espírito criador é fruto da capacidade humana de articular as informações em busca de respostas. A seguir, uma excelente definição sobre o ato de criar do prof. Francisco Gracioso (1997, p. 237): “Criar é sublime. Criar é inovar, inventar, abrir caminhos, plasmar o belo, encontrar soluções novas, avançar, penetrar nas fronteiras da grande saga do gênero humano sobre a Terra ou fora dela. O espírito criador é uma centelha de divindade, caprichoso, delicado, de comportamento imprevisível. Às vezes, ele se consome sem deixar vestígio algum, mas, em outras, provoca explosões de luz, beleza e sabedoria.”

O que podemos fazer para aumentar nossa capacidade criativa?

A chave capaz de sintonizar o cérebro com as perguntas que fazemos a ele, em busca de respostas que solucionem nossos problemas, é o raciocínio orientado para formulação de ideias.

Para auxiliar na criação – e que pude comprovar ao longo do período em que lecionei Criação na Escola de Criação ESPM (1995 – 2002) –, o Processo Criativo, quando praticado, traz resultados impressionantes. Claro que, quanto mais praticado, com empenho e disciplina, as ideias surgem com naturalidade e espontaneidade.

Para que o seu cérebro possa ter criatividade, é preciso convencer-se de que é necessário pedir a ele o que se deseja receber em troca. Este procedimento desencadeia, de forma organizada, o processo de criação. Para apoiá-lo na condução deste aspecto, sugiro a aplicação do Processo Criativo (Roberto Duailibi e Harry Simonsen Jr. 1990), utilizando os seis passos a seguir:

1. Identificar o que precisa ser criado;

2. Preparar-se – estudar profundamente o assunto;

3. Incubação ou ócio, como prefiro tratar – dar tempo para que as informações se organizem no espaço que estabelecer;

4. Aquecimento – usar técnicas como brainstorm individual ou em grupo; reverse brainstorm (recomenda-se evitar críticas) –; synecticos – ajudam a retomar o problema a ser resolvido;

5. Iluminação – a hora da verdade, a Heureka. Uma vez encontrada a ideia, o próximo passo é a sua elaboração;

6. Avaliação – verificar se a criação atende aos objetivos e expectativas.

O ato da criação melhora significativamente a forma como você lida com pressões e problemas e ajuda a disciplinar o cérebro e a controlar o estresse, permitindo que todos os esforços sejam canalizados para a conclusão de um ciclo que se reinicia sempre que solicitado. A prática do processo criativo ajuda, inclusive, no melhor aproveitamento do tempo.

O que apenas alguns fazem, na verdade, é dedicar um pouco do seu tempo e esforço para a arte de criar. A prática criativa – isto mesmo – é necessária. E quanto mais se cria mais fácil parece ficar. O cérebro habitua-se e começa a contribuir. É como andar de bicicleta, depois que você se acostuma, passa a fazê-lo sem perceber. Assim, suas decisões e resoluções de problemas parecem fluir melhor.

Criar cansa, mas é recompensador. Encontrar uma solução criativa é um trabalho exaustivo e, para muitos, tão desgastante que é abandonado antes mesmo de começar o aquecimento do cérebro. Entretanto, quando se experimenta a realização, a satisfação é tanta que a vontade de criar aumenta a cada novo projeto.

Coragem e perseverança são fundamentais para quem quer criar alguma coisa. Thomas Edison já dizia: “Gênio é composto de 1% de inspiração e 99% de transpiração.” Essa transpiração está diretamente relacionada com o cérebro, principal órgão e centro do sistema nervoso, uma parte do corpo humano que quanto mais se exercita mais aumenta sua performance. O cérebro é como uma “nuvem” dentro da nossa cabeça que guarda as respostas de todas as perguntas que façamos a ele. Por vezes, apresenta algumas necessidades que devem ser supridas prontamente e, a cada nova fase, seus pedidos vão sendo atendidos e tomando forma até que mereçam ser avaliados.

Para iniciar um exercício físico, é necessário aquecer o corpo, a fim de evitar lesões. O início do processo criativo também precisa ser preparado, tendo que respeitar alguns procedimentos até que o cérebro esteja aquecido e possa encontrar as respostas certas para as perguntas.

“…um problema bem definido já está 50% resolvido.” (John Dewey)1

Bem, como minha intenção aqui é estimular o ato criativo nos leitores e demonstrar o quanto pode ser facilitado com a prática da criatividade no dia a dia, é preciso que algumas condições sejam entendidas para adquirir-se o hábito de criar.

A quantidade gera qualidade

A criatividade está erroneamente relacionada apenas às atividades ligadas às artes, marketing, publicidade, arquitetura, literatura, design e assim por diante. Na verdade, ela é usada em todas as áreas que exijam tomada de decisão e resolução de problemas, como, por exemplo, na criação de um simples e-mail de agradecimento ou de um projeto de reaproveitamento de energia. A questão de ser criativo é a busca de novas respostas e representações, soluções diferentes das que já existem ou que sejam adequadas às diversas realidades para aquilo que se busca criar, na velocidade e tempo em que você precisa solucionar suas questões. Obter um maior número de respostas para o mesmo problema, certamente, fará com que a qualidade da decisão e a construção de uma ideia sejam melhores.

“… quantidade gera qualidade. Se você produz muito, a garantia de criar algo bom passa a ser estatística… É mais fácil você escolher o melhor de 100. Os critérios sobre o que realmente é bom já apareceram.” Eugênio Mohallem é um dos redatores mais premiados da publicidade brasileira – Revista de Criação nº 14, abril de 1996.

O que está em questão aqui é que você não deve, jamais, contentar-se com a primeira ideia, que todo mortal pode ter, inclusive um colega de trabalho. Só as ideias originais e inéditas para um mesmo problema se diferenciam perante o mercado. É isto mesmo, empresas com espírito inovador procuram profissionais que tenham mais facilidade para criar e lidar com o novo. É muito difícil encontrar uma primeira ideia que seja melhor que as próximas cinquenta.

Esteja sintonizado com o presente e de olho no que ainda não foi feito

A curiosidade é um bem valioso para estimular o processo criativo. Ter uma cultura concebida por interesses variados ajuda a formar um repertório que sirva como referência para se iniciar a busca por algo novo, ou seja: a procura por novas respostas para os mesmos problemas. E não adianta achar que o uso da internet, sem haver um problema bem resolvido, poderá trazer-lhe respostas úteis. Estar atento, treinar o ouvido e o olhar, observar à nossa volta capacita-nos a entender melhor o comportamento das pessoas e das corporações e, com isto, a obter informações que possam alimentar a criação de nossas ideias. As informações bem dosadas e administradas são as “vitaminas” para o processo criativo.

Não adianta ter uma ótima ideia e não conseguir implementá-la ou fazer com que seja aceita. Uma boa ideia só é adotada quando se consegue superar aquelas a que já estamos habituados.

Ter de quebrar paradigma no intuito de introduzir uma nova ideia é, certamente, um grande desafio que uma pessoa pode enfrentar. Para introduzir o novo, é preciso reconhecer a força dos “conceitos” preexistentes no ambiente em que uma ideia nova pretenda atuar.

“Conceito é a forma pela qual uma pessoa acredita que uma coisa funciona. São as crenças pessoais.”2

No caso das relações entre empresas e pessoas ou, mesmo, entre pessoas, o desafio do criativo é conseguir sintetizar o conceito de modo a produzir símbolos que sejam a representação do que o público é, sonha ou deseja ser. Os símbolos são a representação do que somos e estão codificados em nosso inconsciente. Por isto, criar é um ato de coragem e o objeto dessa ação, necessariamente, precisa representar algo com o qual queremos nos corresponder. Tem que fazer sentido, ter significado prático ou algum valor em particular para quem ele é destinado.

Um bom exemplo para definir conceito: no Brasil, dificilmente, você vai conseguir emplacar uma ideia que, para ser usada, obrigue as pessoas a passarem por debaixo de uma escada. Isto torna ela difícil pelo simples fato de existir a superstição de que tal ato está relacionado com azar. Isto é um conceito, uma crença que inibe a mudança de hábito. Da mesma forma, é difícil fazer alguém aceitar uma ideia cujo principal atributo seja “honestidade”, se ela for recomendada pela “classe política”. Infelizmente, a percepção da imagem dos políticos brasileiros está associada mais com a corrupção do que com algo positivo.

Uma criação nova deve ser aceita para que seja útil. É preciso que preencha uma necessidade específica, seja ela aspiracional – que possa gravar valores subjetivos, status, imagem, atender a um desejo, um sonho em particular – ou objetiva.

É importante que saibamos que o nosso cérebro só aceita aquilo que reconhece. Por isto, para apresentar uma ideia nova ou fazer com que ela seja aceita, não adianta tentar empurrá-la. É preciso que esteja conectada, adequada a uma realidade específica ou orientada para a solução de um problema. Caso contrário, corre-se o risco de ter tal ideia engavetada até que ela se mostre útil para uma determinada situação.

A prática da criatividade é uma poderosa ferramenta na resolução de problemas do nosso cotidiano e, para aumentar essa capacidade, é preciso estudar, pesquisar muito a respeito daquilo que estamos predispostos a criar, transformar ou, simplesmente, melhorar. Isto é próprio da nossa espécie e faz parte da evolução.

Faça com que o espírito criativo que existe em você possa transformar-se em hábito e que o seu dia a dia seja agraciado com a capacidade de provocar transformações significativas para você e para o próximo.

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1. John Dewey citado por Roberto Duailib e Harry Simonsen Jr. Criatividade & Marketing, 1990

2. Martins, José S. O poder de imagem. 3ª Ed. Intermeios Comunicação e Marketing, 1993. p. 35

   
 
Milton Tortella- Diretor de Comunicação da Tortella Comunicação
Nasceu e trabalha na cidade de São Paulo, Brasil. Artista visual e publicitário. Desde 1985, atua como diretor de arte e de criação, tendo trabalhado em importantes agências no mercado brasileiro. Atualmente, dirige a criação da Tortella Comunicação. Professor, Co-Fundador da Escola de Criação da ESPM – professor de Criatividade e Direção de Arte (1995-2003), EAD Educare/ESPM e na Faculdade Impacta (2002-2004) – no Curso de Pós-Graduação em Marketing da UniFil – Londrina, PR (2004), além de ter criado o Curso de Gestão de Embalagem da Fundação Getúlio Vargas/GVcenpro (2003).
 
 
 
 
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